Publicado por: Iana Chan em: 03/08/2010
Pedro, que aguardava pela volta da bailarina, perguntou a sua mãe se haveria dança ainda naquela noite.
A mãe, tão confusa quanto os outros pais no picadeiro, aguardava respostas enquanto o burburinho tomava corpo e fazia o dono do circo acordar. No imaginário coletivo, donos de circos são baixinhos-gordinhos-com-bigode-pontiagudo. Bom, nosso dono era Seu Walter, e por algum capricho impossível de entender ele coincide exatamente com essa descrição.
Aflito, certificou-se com a Mulher Barbada de que a situação era realmente grave e que a doce bailarina amargurara-se. Com a certeza de que o show não tinha condições para continuar, pegou o microfone e dirigiu-se para o centro. Seu nervosismo causou uma microfonia que calou instantaneamente a todos:
– Boa noite, senhoras e senhores. Lamento o ocorrido e aviso que hoje o espetáculo não irá mais ocorrer. Nossa bailarina não se sente bem e o show nunca é completo sem ela. Peço a compreensão de todos e garanto um par de convites para cada um. Assim podem voltar e conferir nossa festa completa. Dirijam-se para a bilheteria para retirar os ingressos. Aviso também que a pipoca hoje é por nossa conta. E me coloco à disposição para qualquer dúvida.
O dono do circo era homem bastante letrado e seu destino encontrou-se sob a lona graças a circunstâncias misteriosas que não serão reveladas. Pelo menos não agora.
O coração de Pedro mal teve tempo para se entristecer. Se contagiou com a alegria do estômago, que àquele momento já se preparava para receber as pipoquinhas de graça. Comida de graça é definitivamente uma das 20 maravilhas do mundo, de fato. Ainda mais se o índice de porcaria for alto. O da pipoca ganha 7 numa escala de 12. O suficiente para passar de ano, pensariam os alunos medianos como Pedro.
A ordem assegurada pela cerimônia do espetáculo estava desfeita. Todos saíram de seus lugares lentamente, lamentando a noite perdida, calculando o trânsito ou pensando em que dia poderiam voltar e, ainda, se da próxima vez conseguiriam sentar-se longe dos gordos sujos de manteiga. Apenas uma pessoa pensava na bailarina fujona: dos bastidores, o palhaço sentiu um frio na barriga ao saber que voltaria a história já no segundo capítulo, enquanto a bailarina aguardaria ansiosamente a sua vez.
Sentado no camarim, ele protagonizava uma cena patética: o espelho, daqueles envolto por mini-lampadinhas, refletia a imagem de um palhaço cuja expressão contrariava sua maquiagem. Colorido contra cinza. E ele fazia e desfazia um sorriso, expressando a alegria e a tristeza de quem tem uma ideia genial e logo se dá conta de que ela é impossível.
Tentaria encontrar a fugitiva ou respeitaria sua decisão e aguardaria o retorno triunfal do capítulo 14?
A fuga, elucubrava, poderia ter sido um pedido de socorro. Desses que pedimos quando meio sem jeito, procurando pessoas que detém a cifra desse misterioso código na espera de que elas corressem para nos ajudar. A bailarina, com a fuga dramática, poderia estar aguardando alguém, esperando compreensão, ansiosa por carinho e atenção. De uma coisa o palhaço tinha absoluta certeza: ela queria que todos soubessem de sua decisão. Caso contrário não teria esperado o show se armar. Se bem que, como artista, gostaria de contar com holofotes sobre si naquilo que pode ser seu último número.
Olhando para a foto dos dois pendurada no espelho, o palhaço pensou que talvez ela não tivesse planejado nada disso e a fuga, inesperada para ela mesma, fora provocada por algo que a perturbou naquele exato instante e o fato de esse instante ser o mesmo do espetáculo para 1347 pessoas se tratava de mero acaso… Assim o palhaço perdera sua certeza absoluta.
Diante do dilema, preferiu recolher-se e aguardar mais alguma pista. Se fosse puro drama, não gostaria de alimentá-lo, tentava se convencer. Mas sua vontade autêntica (aquela que paramos de revelar depois dos sete anos completos) era sair atrás da bailarina e abraçá-la bem forte quando a encontrasse. Ela sorriria da maneira como a que sorri ao ouvir os aplausos. Não, ela sorriria bem mais do que isso. O triplo! E diria emocionada: “Que bom te ver! Que bom que você me encontrou! Tenho uma coisa para lhe dizer desde que viajamos para a capital, eu…”
04/08/2010 às 10:00 PM
eeeeeeeeeeeu o que, Jesuuuuuuuuuuuuuuis ?!?!??!