Doces tolices

Capítulo III

Publicado por: Iana Chan em: 30/09/2010

Peço desculpas aos leitores que gostariam de ver  o final do devaneio do palhaço, mas o Sindicato do Bom Senso contra o Melodrama (SBSCM) esteve aqui e gentilmente solicitou a interrupção daquilo. Pois bem. Nunca fui dos romances água-com-açúcar. Na verdade, tenho algumas reservas: eles colaboram para a criação de um mundo idealizado que exatamente por isso nunca experimentará a realidade (caros leitores: não entendi o que quis dizer nesse trecho, mas mantive a transcrição porque achei divertida). Ao final, distribuem frustração e maníacos que jamais enxergarão sentimentos, porque estarão tentando encaixá-los na escala de amor das comédias românticas (prometo explicar-lhes isso com gráficos interativos).

De qualquer maneira, o palhaço não decidiu-se por nada, decidindo assim pela inação. Voltou para seu trailer vermelho e preparou para si mesmo um bom prato de miojo com requeijão. O circo já se esvaziava e os estômagos cheios e quentinhos com a pipoca gratuita já voltavam para casa um pouco menos coloridos.

Um ar, mistura de pesado silêncio e ligeira apreensão, pairava por entre os trailers. Não houve confraternização pós-espetáculo entre os artistas naquela noite. Como num acordo tácito, as partes tinham consciência de que o assunto tornara-se tabu. As especulações, dúvidas e risos maldosos deveriam ser contidos para si. A unica conversa sobre o acontecido desenrolou-se no trailer laranja-de-sol, porque depois de cinco meses e meio de namoro, o domador do leão e a assistente do mágico passaram a morar juntos.

– Sempre soube que havia algo de podre na bailarina…

– Além do pé?

– Não seja infame. Pobrezinha, onde estará a essa hora da noite? O acrobata uma vez me disse que ela  não tem família aqui. É filha de russos, algo assim. Será que passa fome? Devíamos procurá-la!

– Não sei, da trupe éramos com quem ela menos conversava. O palhaço deveria ir atrás dela. Nós apenas a constrangeríamos…

– Talvez, mas é que não sabemos por que ela fugiu. Se perguntássemos ao palhaço, acha que ele nos contaria?

–Pode ser, querida. Mas amanhã. Hoje quero só aproveitar a dispensa antecipada do trabalho e ficar com você. Vem aqui, vem…

Formavam um belo casal, ela sempre sorridente – embora sua mente se povoasse com maldades escondidas- ele sempre destemido. Tão corajoso quanto se pode ser em frente a um leão velho e tingido.

Naquela noite, não pensaram mais na bailarina.

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4 Respostas para "Capítulo III"

um pouco de amelie poulain, um pouco de saramago e quem sabe um pouquinho de italo calvino??

quero mais, e quero comida de circo!!

vc é engraçada…
miojo com requeijão é nojento, hein?

continua escrevendo, vá!

um beijão!

voce sabe que ainda estou esperando voce atualizar… vou fazer birra se voce nao continuar esse circo de historia

E como ficou a bailarina e o palhaço?!!?

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