Doces tolices

No rio escuro e revoltoso pela corrente, milhares de pontinhos verdes faziam brilhar. Os vaga-lumes afogaram-se. Pena.
Logo ali na margem, uma fileira de coelhos assistia a cena hipnotizante, os olhos brancos cintilavam na noite. Mas quando acenderam a luz tudo havia sumido, só restara o rio já quase transparente e em seu fundo pequenos filetes de um líquido espesso e negro – que vertia de pequenas rachaduras.

 

(achei-o perdido nas folhas brancas de um bloco torto e comercial)

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Finalmente – e deve ser contra qualquer manual ralé de estruturas narrativas iniciar um capítulo com essa palavra -, voltemos o foco para a bailarina tristonha.
Logo depois de sair fugida do espetáculo e do palhaço, e depois de juntar seus cacarecos no trailer roxo, parou em uma lanchonete não muito longe do circo para comer um gorduroso hambúrguer.

Uma vez que havia decidido largar a lona, não havia razão para continuar sua dieta. E um hambúrguer agora conteria toda catarse que Édipo nenhum jamais alcançaria.

Quando o lanche chegou, seus olhos brilharam do mesmo jeito com que o palhaço sonhara motivar. As batatas fritas – não existe hambúrguer sem batata frita, repetia – iam gostosamente à sua boca e eram estraçalhadas com a saliva que abundava tão logo tocavam a lingua da bailarina. Não há melhor sensação do que a satisfação da gula (embora as tias católicas alertem para a eterna insatisfação do pecado capital).

A jaqueta jeans desbotada propositalmente (pelas mesmas brilhantes  indústrias que pregam o penteado meticulosamente bagunçado) cobria boa parte de seu colant. O tutu já estava na sua vellha mala marrom, disputando espaço com as sapatilhas, os infinitos laços, livros e bexigas (ela gosta de enchê-las pouco antes de dormir). O cabelo todo repuxado e lambuzado de gel com glitter, porém, a entregava – apesar de a forte maquiagem já estar apagada, fazendo seu anguloso rosto desnudo exibir destemido algumas poucas rugas na região da testa e dos olhos grandes e castanhos.

Sua mala era pequena, mas suficiente para dar pinta de que a bailarina estava de viagem. O balconista, ao vê-la carregando o objeto com alguma dificuldade, selecionou a abordagem mais óbvia do Livro de Abordagens Estúpidas por Desconhecidos: “Fugiu de casa, é?!”. Esta frase divide o pódio com “Ah! Pra mim?! Não precisava!”. Infelizmente esse livro vazou do Circuito dos Bares e Lanchonetes para alcançar círculos sociais desagradáveis já na essência, como o Círculo dos Parentes Distantes.

À abordagem criativa, ela valeu-se da resposta mais universal: sorriu suspirando e apertando os olhos, expressão maravilhosa que consegue economizar bastante tempo ao dizer “Amor, não estou com bom humor hoje. Mas não percamos tempo. Esta é uma relação historicamente impessoal e prefiro que continue assim. Desculpe se estou sendo grosseiro/grosseira, não quero te ofender. Passado isso, estamos numa boa? Fico feliz!”. O balconista compreendeu e anotou o pedido.

Quando a última mordida abocanhou o resto do lanche, um sentimento imperioso começou a se formar: tinha que que encontrar um lugar para ficar (apesar de não gostar de rimar ao pensar…). Na antepenúltima batatinha (a 3ª maior), percebeu que não lhe restavam muitas opções: não conhecia ninguém por ali, sua família toda estava na Rússia contando a quem quisesse ouvir que sua menina havia viajado com um renomado grupo de balé classico – pelo menos essa foi a última versão combinada entre eles-, tinha pouco dinheiro e auxílio-desemprego era uma piada entre o povo circense, além disso, não cogitava dormir na rua ou gastar suas poucas notas com essa questão.

Apenas a certeza de estar mais feliz agora não a jogava no abismo da falta de alternativas.

Peço desculpas aos leitores que gostariam de ver  o final do devaneio do palhaço, mas o Sindicato do Bom Senso contra o Melodrama (SBSCM) esteve aqui e gentilmente solicitou a interrupção daquilo. Pois bem. Nunca fui dos romances água-com-açúcar. Na verdade, tenho algumas reservas: eles colaboram para a criação de um mundo idealizado que exatamente por isso nunca experimentará a realidade (caros leitores: não entendi o que quis dizer nesse trecho, mas mantive a transcrição porque achei divertida). Ao final, distribuem frustração e maníacos que jamais enxergarão sentimentos, porque estarão tentando encaixá-los na escala de amor das comédias românticas (prometo explicar-lhes isso com gráficos interativos).

De qualquer maneira, o palhaço não decidiu-se por nada, decidindo assim pela inação. Voltou para seu trailer vermelho e preparou para si mesmo um bom prato de miojo com requeijão. O circo já se esvaziava e os estômagos cheios e quentinhos com a pipoca gratuita já voltavam para casa um pouco menos coloridos.

Um ar, mistura de pesado silêncio e ligeira apreensão, pairava por entre os trailers. Não houve confraternização pós-espetáculo entre os artistas naquela noite. Como num acordo tácito, as partes tinham consciência de que o assunto tornara-se tabu. As especulações, dúvidas e risos maldosos deveriam ser contidos para si. A unica conversa sobre o acontecido desenrolou-se no trailer laranja-de-sol, porque depois de cinco meses e meio de namoro, o domador do leão e a assistente do mágico passaram a morar juntos.

– Sempre soube que havia algo de podre na bailarina…

– Além do pé?

– Não seja infame. Pobrezinha, onde estará a essa hora da noite? O acrobata uma vez me disse que ela  não tem família aqui. É filha de russos, algo assim. Será que passa fome? Devíamos procurá-la!

– Não sei, da trupe éramos com quem ela menos conversava. O palhaço deveria ir atrás dela. Nós apenas a constrangeríamos…

– Talvez, mas é que não sabemos por que ela fugiu. Se perguntássemos ao palhaço, acha que ele nos contaria?

–Pode ser, querida. Mas amanhã. Hoje quero só aproveitar a dispensa antecipada do trabalho e ficar com você. Vem aqui, vem…

Formavam um belo casal, ela sempre sorridente – embora sua mente se povoasse com maldades escondidas- ele sempre destemido. Tão corajoso quanto se pode ser em frente a um leão velho e tingido.

Naquela noite, não pensaram mais na bailarina.

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Pedro, que aguardava pela volta da bailarina, perguntou a sua mãe se haveria dança ainda naquela noite.

A mãe, tão confusa quanto os outros pais no picadeiro, aguardava respostas enquanto o burburinho tomava corpo e fazia o dono do circo acordar. No imaginário coletivo, donos de circos são baixinhos-gordinhos-com-bigode-pontiagudo. Bom, nosso dono era Seu Walter, e por algum capricho impossível de entender ele coincide exatamente com essa descrição.

Aflito, certificou-se com a Mulher Barbada de que a situação era realmente grave e que a doce bailarina amargurara-se. Com a certeza de que o show não tinha condições para continuar, pegou o microfone e dirigiu-se para o centro. Seu nervosismo causou uma microfonia que calou instantaneamente a todos:

– Boa noite, senhoras e senhores. Lamento o ocorrido e aviso que hoje o espetáculo não irá mais ocorrer. Nossa bailarina não se sente bem e o show nunca é completo sem ela. Peço a compreensão de todos e garanto um par de convites para cada um. Assim podem voltar e conferir nossa festa completa. Dirijam-se para a bilheteria para retirar os ingressos. Aviso também que a pipoca hoje é por nossa conta. E me coloco à disposição para qualquer dúvida.

O dono do circo era homem bastante letrado e seu destino encontrou-se sob a lona graças a circunstâncias misteriosas que não serão reveladas. Pelo menos não agora.

O coração de Pedro mal teve tempo para se entristecer. Se contagiou com a alegria do estômago, que àquele momento já se preparava para receber as pipoquinhas de graça. Comida de graça é definitivamente uma das 20 maravilhas do mundo, de fato. Ainda mais se o índice de porcaria for alto. O da pipoca ganha 7 numa escala de 12. O suficiente para passar de ano, pensariam os alunos medianos como Pedro.

A ordem assegurada pela cerimônia do espetáculo estava desfeita. Todos saíram de seus lugares lentamente, lamentando a noite perdida, calculando o trânsito ou pensando em que dia poderiam voltar e, ainda, se da próxima vez conseguiriam sentar-se longe dos gordos sujos de manteiga. Apenas uma pessoa pensava na bailarina fujona: dos bastidores, o palhaço sentiu um frio na barriga ao saber que voltaria a história já no segundo capítulo, enquanto a bailarina aguardaria ansiosamente a sua vez.

Sentado no camarim, ele protagonizava uma cena patética: o espelho, daqueles envolto por mini-lampadinhas, refletia a imagem de um palhaço cuja expressão contrariava sua maquiagem. Colorido contra cinza. E ele fazia e desfazia um sorriso, expressando a alegria e a tristeza de quem tem uma ideia genial e logo se dá conta de que ela é impossível.

Tentaria encontrar a fugitiva ou respeitaria sua decisão e aguardaria o retorno triunfal do capítulo 14?

A fuga, elucubrava, poderia ter sido um pedido de socorro. Desses que pedimos quando meio sem jeito, procurando pessoas que detém a cifra desse misterioso código na espera de que elas corressem para nos ajudar. A bailarina, com a fuga dramática, poderia estar aguardando alguém, esperando compreensão, ansiosa por carinho e atenção. De uma coisa o palhaço tinha absoluta certeza: ela queria que todos soubessem de sua decisão. Caso contrário não teria esperado o show se armar. Se bem que, como artista, gostaria de contar com holofotes sobre si naquilo que pode ser seu último número.

Olhando para a foto dos dois pendurada no espelho, o palhaço pensou que talvez ela não tivesse planejado nada disso e a fuga, inesperada para ela mesma, fora provocada por algo que a perturbou naquele exato instante e o fato de esse instante ser o mesmo do espetáculo para 1347 pessoas se tratava de mero acaso… Assim o palhaço perdera sua certeza absoluta.

Diante do dilema, preferiu recolher-se e aguardar mais alguma pista. Se fosse puro drama, não gostaria de alimentá-lo, tentava se convencer. Mas sua vontade autêntica (aquela que paramos de revelar depois dos sete anos completos) era sair atrás da bailarina e abraçá-la bem forte quando a encontrasse. Ela sorriria da maneira como a que sorri ao ouvir os aplausos. Não, ela sorriria bem mais do que isso. O triplo! E diria emocionada: “Que bom te ver! Que bom que você me encontrou! Tenho uma coisa para lhe dizer desde que viajamos para a capital, eu…”

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Levantou-se e saiu – provavelmente procurando um lugar mais apropriado para desabar. Que frustrante um mundo que te impõe limites geográficos para qualquer ação. Ou que indivíduo frustrado aquele que não consegue ignorar esses limites.

O palhaço, ainda no banheiro, sentiu uma tristeza profunda o acometendo. Não sabia, porém, se ela vinha do fato de ter atrapalhado o choro da bailarina ou se ele havia se contaminado por sua tristeza, ou se era um sentimento de saudade antecipada. Por último, sentiu-se sozinho ao perceber que esta história seria protagonizada pela doce bailarina. “Os autores cansaram-se da figura arquetípica do palhaço”, lamentou.

Calma, caro palhaço, os leitores ainda não sabem que é você, a bailarina borrada ou eu. Não seja tão dramático. Sorria.

E como mágica, ele sorriu.

Com o circo armado o estpetáculo se inicia.
Tudo parece em seu lugar.
Não fosse com isso contado da bailarina a simpatica.
Algo estava errado.
Destacando-se das coloridas ansiedades infantis, a bailarina percebeu que não deveria dançar. E deixou o picadeiro assim que a primeira nota soou.
Correndo desesperada pelos bastidores foi se acalmar apenas no banheiro, cujo único assento que oferecia era a privada.
“Meu reino por uma vida”, sorriu meio amargo já despejando gordas lágrimas de seus olhos.
O palhaço entrou instantes depois, tirou o chapéu que lhe conferia pelo menos dez pontos de palhacidade e disparou temendo a pior das respostas:
– Você não vem? Estão te esperando… O que aconteceu?
A bailarina não conseguia chorar na frente de estranhos, Ainda mais se eles estiverem vestidos como palhaços. Limpou o rosto com o antebraço como nunca veremos outra bailarina fazer. E tentou responder do modo mais sóbrio, consciente e sério que conseguiu:
– Que se dane o espetáculo! Eu estou indo embora!
– Ahn… Quando você vai?
– Ainda não sei, acabei de me decidir.

Metáfora: coisas simples da vida merecem mais atenção.

Crime: resolvido nos detalhes.

Criminoso: um inocente circunstancial.

Cenário: tons contrastantes. roxo escuro, azul noite e laranja sol.

Tags: chuva de raios de-sol-adora.

Tempo: sempre.

Quem: todos nós.

Enlace: rosa e grande.

Escrito no meu caderno dia 25/12/2008.

Tento me lembrar se estava sob efeitos de drogas natalinas. Não consegui.

Um beijo.

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Chicletes